Elementos para uma releitura clínica da noção de narcisismo a partir das relações entre anorexia e melancolia

Em 1914, Freud afirma que o narcisismo é uma operação essencial para que o sujeito constitua um eu e um corpo. A experiência clínica evidencia as dificuldades e os obstáculos para que esta necessária ação psíquica se conclua satisfatoriamente na esquizofrenia, na paranoia, na melancolia ou na histeria. Com Freud, compreendemos que a constituição do corpo como próprio é algo a ser alcançado. Já está presente na metapsicologia freudiana a ideia sobre a qual o sujeito tem com seu corpo uma relação de exterioridade, e que ele precisa apropriar-se deste corpo. A anorexia e a melancolia evidenciam as dificuldades desta operação. Com Lacan, o problema da anorexia não se deixa reduzir a uma fragilidade narcísico-imaginária. A partir daí, a dimensão imaginária somente deve ser considerada em relação com o Outro e com o gozo. Um caso clínico nos permite verificar que a anorexia pode funcionar como uma suplência imaginária em um caso de melancolia.

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